Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

O Cotrão

Nos últimos anos o termo de Outeiro Seco sofreu uma transformação radical, causado pela construção de várias estruturas económicas na freguesia, e por via disso, houve nomes de locais que praticamente desapareceram da nossa nomenclatura. Um desses locais é o Cotrão, que, por força da construção do Parque Empresarial e Industrial foi totalmente absorvido por essa estrutura, assim como parte de Vale Salgueiro e de Vale de Amieiro.

A família Lopes à portuguesa, é conhecida pelos Galegos, fazendo jus às origens do pai, natural da Galícia, mais propriamente da província Lugo, a mesma província donde nos finais do século IXX a família de Fidel Castro emigrou para Cuba, tal como muitos portugueses, alguns dos quais outeiro secanos como Líbia Pepa que, aí conheceu e casou com Álvaro Lopez.

De facto, a alcunha de galego vinha-lhe a propósito. Primeiro porque efectivamente tinha nascido na Galícia, segundo porque pese embora tenha vivido em Portugal e na nossa aldeia, seguramente mais de cinquenta anos, o tio Álvaro, jamais perdeu a origem da sua língua, e continuou até ao fim da sua vida, a falar sempre em galego.

Ora, era precisamente no Cotrão que, esta família tinha uma propriedade, situada mais ou menos onde agora está a rotunda do MARC - Mercado Abastecedor da Região de Chaves, e donde produziam de tudo para a casa. Para a casa isto é, se antes outros os o não colhessem primeiro, porque a propriedade estava exposta a isso, situada ali mesmo junto à estrada.

Entre algumas árvores de fruto que havia na propriedade, destacava-se um pessegueiro temporão, que dava uns pêssegos tão rosadinhos que, cegava de desejo os que passavam na estrada. Por isso um dia lá pelo tempo das vindimas, um grupo de mariolas da aldeia, combinaram fazer a colheita do pessegueiro, antecipando-se assim ao Zé Galego, seu legítimo proprietário.

O grupo, ainda que sem qualquer necessidade senão a adrenalina própria da juventude, compunha-se pelo; Zé Fernando, Zé Manuel, Tibério, Altino e Nuno, embora este porque teve de ir à pisada do Sr. Miguel Pereiro, só se juntou ao grupo no fim. Como o Cotrão ficava longe da aldeia, o plano utilizado foi o seguinte. Iam de noite no carro do pai do Altino, o qual conduzia com perícia, desde os seus catorze anos, traziam os pêssegos no carro, os quais seriam depois comidos, por uma ou mais vezes, num palheiro situado junto ao rigueiro, mesmo em frente à casa do Redonda velho, que os pais do Zé Manuel traziam de renda.

O plano foi cumprido à risca, trouxeram um enorme saco de pêssegos, no regresso apanharam o Nuno junto à senhora da Portela. O Altino estacionou o carro na garagem, e lá foi o grupo com o saco dos pêssegos para o palheiro, através do caleão. Ao passar o rigueiro ainda seco, pois estávamos ainda no verão, o grupo vê que um pouco mais acima, junto à pedra de mesa, atravessava também o rigueiro o Quim Redonda, já com um grão na asa, vindo da pisada do seu irmão Silvano.  

O Zé Manuel que na festa anterior tinha comprado uma pistola de alarme, decidiu então dar dois tiros para o ar, só para assustar o Quim Redonda. Este ao ouvir os tiros e pensando que se dirigiam a si gritou – Ai que me querem matar, e aos esses, foge a sete pés para casa, logo ali perto.

O som dos tiros foi ouvido pelo Norberto que, vindo também da pisada do Silvano, depois de se ter separado do Quim Redonda, seguia para casa, indo já perto da casa do Ilídio. De imediato, suspeitou que os tiros eram da pistola do Zé Manuel, porque ele próprio já a tinha experimentado. E quando o grupo estava já dentro do palheiro iniciava a degustação dos pêssegos, sentiu o ferrolho exterior da porta a correr, e ouvem a voz do Norberto a dizer.

- Ah bandidos que haveis de dormir aí!

Reconhecida a voz do Norberto ninguém ficou preocupado, pensando que em breve ele se juntaria ao grupo. Só que o tempo foi passando, e do Norberto nem sinais. Como ia ficando cada vez mais tarde, a preocupação em sair do palheiro tornou-se maior, principalmente, pelas justificações a dar à família da não dormida em casa, sendo o Altino, o mais preocupado, porque não era usual sair à noite, em especial sem autorização para tal.

Fizeram-se várias tentativas para abrir a porta pelo interior, mas todas foram infrutíferas. A ansiedade foi-se apoderando de todos, até que alguém se lembrou de subir ao montão de feno ali armazenado, o qual chegava ao tecto, e dali retirar umas telhas do telhado por onde saiu, abrindo depois a porta pelo exterior.

 Foi já de madrugada que o grupo recuperou a liberdade perdida, como que se estivera de castigo pelo acto praticado, cumprindo-se a máxima “ Cá se fazem cá se pagam”.

Nuno Santos

    

sinto-me:
publicado por outeiroseco às 20:48
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8 comentários:
De Anónimo a 18 de Junho de 2011 às 11:21
Nesse tempo com todas as restrições fictícias de liberdade de expressão etc...etc...pardais ao ninho, este acontecimento não passou de uma brincadeira de jovens amigos a qual fazia parte do crescimento normal como seres humanos com todos os erros e defeitos e também todas as qualidades inerentes.!!!!!!!!!!!!!!!!?????????
Se fosse hoje (roubo, disparos de arma de fogo, coacção etc...) com toda a nossa dita liberdade democrática, com as nossas estupidas leis fabricadas por deputados parasitas e.... pardais ao ninho ,,etc...etc... seria considerada uma organização de malfeitores, se nãio tivessem um bom advogado iriam parar á cadeia etc..etc..pardais ao ninho, mas!!! um bom advogado poderia também transformá-los em heróis, dar direito a escrever um livro sobre tal façanha e aplaudidos nos telejornais dos nossos livres canais privados de televisão, para além de dar direito a brilhar no you tube....etc.

VIVA A DEMOCRACIA.
VIVA A BOA GOVERNAÇÃO E A DÍVIDA EXTERNA DA PATRIA DEMOCRATICA PORTGUESA.
De Lurdes a 17 de Junho de 2011 às 01:12
bff se deito a mão um um pêssego será que me dizem alguma coisa! Sabes ate tenho ali mas estes como que estão mais á mão que achas? xiu miúda aconselha mas abaixa o pio não vês que o pessoal estão no ninho!
De Lurdes a 17 de Junho de 2011 às 00:01
bff chamas-te???? nem te ouvi miúda tava ali a besuntar o frango com barbecue.... vou reler a cena ali em cima pois tal parece que o sr . não era galego...até já
De Fernando RIO a 16 de Junho de 2011 às 23:10
gostei imenso da historia, mas ha uma coisa que nao esta certa . o conhecido Alvaro galego tinha como nome de baptismo Alvaro Lopes Garcia, e nunca foi galego porque nasceu na provincia de Leon , que pertense ao reino de Castela, dai ser CASTELHANO e nao GALEGO. parabens Nuno gostei da historia venham mais e sempre bom recordar
De Nuno Santos a 17 de Junho de 2011 às 07:39
Olá Fernando,
Obrigado pela correcção mas a ideia generalizada era a de que o teu avô, era natural da província de Lugo, e por isso galego. A cidade de Lugo além de ser uma das cidades mais antigas, pois segundo os registos terá sido fundada no ano 25 Antes de Cristo, é muito bonita em partiucular a sua catedral nomeadamente o seu altar mor.
Sendo ele leonês, cometeu-se com ele e com toda a família esse equívoco, porque foram e continuam a ser chamados de galegos, quando na verdade são leoneses, embora contigo isso aconteça de facto, pois és um verdadeiro leão, ainda que estejamos a passar um ciclo sofredor, o nosso leão ainda vai dar a volta e vai dar-nos muitas alegrias.
Saudações leoninas,
Nuno Santos
De Lurdes a 16 de Junho de 2011 às 02:24
Wow eu já nem me lembrava onde ficava o Cotrão ! Olha pro que lhes dava aos miúdos ! Que cinturadas ....Gostei da historia, muito bem contada sim sr. Parabéns Nuno... Obrigada por compartirem .

Boa noite pra todos(as)
De leonor moreira a 15 de Junho de 2011 às 22:58
História de canalha...muito bem contada.
Parabéns Nuno!
Eram frescos, eram!
cmps
leonor moreira
De J.A.S FCP Nrº 102214 a 15 de Junho de 2011 às 22:03
COM QUE ENTÃO O NOSSO AMIGO ADMINISTRADOR E ALGUNS AMIGOS SEUS FORAM ATÉ AO COTRÃO "COLHER" OS PESSEGOS DO SR. ZÉ GALEGO...
MUITO BEM...O AMIGO A.R , PARA MAIS CONDUZIU O CARRO DO PÁI SEM TER CARTA...SIM SENHOR...
SÓ FOI PENA TEREM CONSEGUIDO SAIR DO PALHEIRO ANTES DO SOL NASCER...
QUERIA VER QUAL A DESCULPA QUE ARRANJAVAM PARA DAR AOS PÁIS...HAHAHAHA
AMIGOS NUNO E A.R , BONS TEMPOS QUE ERAM ESSES...BEM MELHORES QUE OS DE HOJE DE CERTEZA...HAVIA CONVIVIO/AMIZADE ENTRE TODOS...
E HOJE
UM ABRAÇO!

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