Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

As cerejas do padre Luís

Diz o povo que, a ração não é para quem se talha, mas para quem a come, e o exemplo disso foram as cerejas da tia Laura Perpétua nos Marmorais, que estavam guardadas para o seu filho, o padre Luís, mas comidas por dois galopins, o Vasco e o João Manuel da tia Bia.

Era o tempo em que imperava na vida das populações rurais, um grande sentido comunitário, os vizinhos se ajudavam nos trabalhos agrícolas, as alfaias e outros utensílios domésticos eram partilhados, assim como as pastagens do gado. Ainda que não fosse como nas terras do Barroso, onde um único pastor em sistema de rotatividade levava ao pasto, todo o gado da aldeia. Na nossa terra, era comum ver-se gado de mais do que um proprietário, num único lameiro.

Por causa desse espírito de partilha, o Vasco e o João Manuel foram ambos com as vacas para o escorna cabras, onde a tia Bia trazia uma terra da sua comadre a D. Beatriz, que, além de terra de centeio tinha também um bom pastarrão. Este lugar situava-se entre Vale de Salgueiro e os Marmorais e agora, é mais uma parcela do Parque Empresarial.

Nos Marmorais fica também uma das maiores vinhas da aldeia, outrora propriedade do Sr. João das Crias, agora dos seus herdeiros. Uma boa parte do vinho produzido, vendia-o a comerciantes da cidade, como o Faustino, outra vendia-o na taberna que explorava no Eiró, pela sua mulher, ou pelas suas filhas, a Maria e a Toninha, as duas que mais tarde abandonaram a casa dos pais.

A vinha era os olhos da cara do Sr. João, e onde passava a maior parte do seu tempo, na companhia da Cuca, uma égua, com que ele fazia a lavoura. Para acompanhar retemperar as forças, o tio João levava sempre com ele um pipito de vinho.

Estes pipos tinham uma dimensão variável entre um a cinco litros. Usavam-se muito para levar o vinho para o monte ou nos dias de grandes trabalhos. Diferenciavam-se das pipas não só pela dimensão, mas porque não tinham portinhola. No seu dorso tinham um pequeno orifício que se tapava com uma rolha, por onde se bebia. Nos trabalhos colectivos o pipo passava de mão em mão. Cada homem ou mulher antes de levar o pipo à boca limpava o orifício com a manga da camisa, muitas das vezes suja de suor, sem qualquer receio de contágios.

O Vasco e o João Manuel viviam paredes meias com a taberna do Sr. João, e conheciam bem os seus costumes. Como a propriedade do escorna cabras era vedada deixaram a cria sozinha, e foram sorrateiramente à descoberta do pipo, a fim de lhe darem umas valentes goladas, enquanto o Sr. João na sua azáfama, estivesse mais afastado do local, onde tinha o farnel.

Era o tempo das cerejas, e os rapazes descobriram não só o pipo, mas também umas cerejas vermelhinhas, as tais que a mulher lhe pedira para ele apanhar e presentear o seu filho Luís, padre na aldeia de Edral concelho de Vinhais, que nesse dia vinha à aldeia visitá-los.

Mas os rapazes tiveram uma dificuldade inesperada. Nesse dia o Sr. João tinha a companhia da Fadista, uma cadela do José Serra. A Fadista até conhecia os rapazes, porque eram vizinhos, mas como viera com o Sr. João, defendia o seu património, e assim quando os rapazes se abeiraram da cerejeira, começou a ladrar.

Só que o Sr. João e a Cuca na sua labuta, vieiro abaixo vieiro acima, não se apercebeu da presença dos rapazes porque sempre que faziam o percurso na sua direcção, estes escondiam-se. Quando faziam o inverso, atiravam-se às cerejas, pese embora os latidos da Fadista. Para melhor chegarem às cerejas, montaram um estratagema tipo equilibristas de circo. O João com um maior porte atlético ficou em baixo, e o Vasco mais franzino, trepou aos ombros do João, e daí com a camisa bem apertada pelo cinto, enchia literalmente a blusa de cerejas, e não deixaram uma única cereja na árvore.

Quando à noitinha a senhora Laura nas escadas da tia Bia lançava impropérios contra dois gandulos que lhe tinham roubado as cerejas guardadas para o seu filho padre, o Vasco, começou a entrar em pânico, antevendo já o castigo da Maria Sobreira, sua mãe. O João apercebendo-se do receio do amigo, disse-lhe em surdina.

- Tem calma! Sr. João já me disse que não reconheceu os gandulos.

A suspeita nunca recaiu nos rapazes, muito por causa da Fadista. Pois se ela ladrou tanto, é porque não conhecia os ladrões das cerejas, o que não era o caso do Vasco e do João, que eram seus conhecidos.

E assim se cumpriu a máxima! Bem estava guardado o bocado, mas para quem o comeu.

Contada por Vasco

Recontada por Nuno Santos

sinto-me:
publicado por outeiroseco às 10:33
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15 comentários:
De J.A.S FCP Nrº 102214 a 31 de Julho de 2011 às 13:17
PESSOAL, HOJE TEMOS ANIVERSÁRIO NO NOSSO CANTINHO DA AMIZADE...
A ANIVERSARIANTE É A NOSSA AMIGA LEONOR MOREIRA...
PARA ELA ENVIO UM ABRAÇO E DESEJO QUE ESTA DATA SE REPITA POR MUITOS E BONS ANOS CHEIOS DE PAZ, SAÚDE E AMOR!
De Lurdes a 31 de Julho de 2011 às 13:25
Xiu Joao nao tao rapido o aniversario é amanha catano.....

Bom Domingo amigos!
De GENO FIGUEIRAS☺ a 31 de Julho de 2011 às 07:37
31 de Julho

- de 1917. Terceira Batalha do Ypres. O exército britânico, sob o comando do marechal Haig, lança uma ofensiva para tentar ocupar a costa da Bélgica e impedir a guerra submarina alemã. A ofensiva terminou em 8 de Novembro tendo conseguido conquistar a vila belga de Passchendaele, a meros 4 quilómetros do ponto de partida.

- de 1971. Os astronautas americanos David Scott e James Irwin passeiam na Lua, no veículo lunar.


De vasco sobreira garcia a 29 de Julho de 2011 às 21:58
bom meus amigos fim de dia último dia util do mês estou a 90km de casa tenho duas auto estradas chego a casa em no maximo 90 minutos e tem uma tortinha não tem polícia nem balão mas levo mais de 120minutos para chegar mais é por essa que eu vou o motivo tem dois daí que sabem o motivo pois estiveram aqui comigo e viram quantas brejas ou cervejas foram viradas e hoje para piorar está um final de dia lindo à os dois são os meus primos eusébio e lelo cunha ou sobreira abraço para todos e um ótimo fim de semana vasco
De GENO FIGUEIRAS☺ a 29 de Julho de 2011 às 18:51
29 de Julho

- de 1883. Nascimento de Benito Mussolini (1883-1945), em Dovia, Itália. Governou Itália de 1922-1948.
De Lurdes a 29 de Julho de 2011 às 18:16
Oh my Goodness !!!!! Oh Geno não era preciso tantas.....pronto agora já não há desculpa
De Lurdes a 29 de Julho de 2011 às 12:40
Good morning amigos! Queria dizer bom dia em outra língua mas não sei.....pronto só pra desejar um feliz dia ...até já ou até quando alguém apareça Daqui a nada meto ferias tb , isto como aborrece andar por aqui solita
De GENO FIGUEIRAS☺ a 29 de Julho de 2011 às 15:36
bom dia em outras linguas !!!


Afrikaans Goeie môre
Albanian Mirëmëngjes
Amharic Endermen aderkh
Arabic Sabah-il-kheir
Aramaic Yasetel liesbukh
Armenian Bari luys
Assyrian Kedamtookh brikhta
Azerbaijani Sabahiniz Xeyr
Bamougoum Oli yah
Basque Egun on
Belarussian Dobray ranitsy
Bemba Mwashibukeni
Bengali Shu-probhaat
Bisaya Maayong adlaw
Bosnian Dobro jutro
Bulgarian Dobro utro
Cantonese Zou san
Catalan Bon dia
Cebuano Maayong buntag!
Chichewa Mwadzuka bwanji
Chinese: Mandarin Zao shang hao
Cornish Myttin da
Corse Bun ghjiornu
Creole Bonjou
Croatian Dobro jutro
De GENO FIGUEIRAS☺ a 29 de Julho de 2011 às 15:40

Czech Dobré ráno
Danish God morgen
Dari Sob Bakhaer
Divehi Baajjaveri hedhuneh
Dutch Goedemorgen
English Good morning
Eritrean Haderfum
Esperanto Bonan matenon
Estonian Tere hommikust
Etsakor Naigbia
Fanti Me ma wo akye
Farsi Subbakhair
Fijian Sa Yadra
Filipino Magandang umaga po
Finnish Hyvää huomenta
Flemish Goeie morgen
French Bon matin
Frisian Goeie moarn
Galician Bos dias
Georgian Dila mshvidobisa
German Guten Morgen
Greek Kali mera
Greenlandic Iterluarit
Gujarati Subh Prabhat
Hakka On zoh
Hawaiian Aloha kakahiaka
Hebrew Boker tov
Hiligaynon Maayong aga
Hindi Shubh prabhat
Hungarian Jo reggelt
Icelandic Gódan daginn
Ilocano Naimbag nga Aldaw
Indonesian Selamat pagi
Irish Gaelic Dia duit ar maidin
Italian Buon giorno
Japanese Ohayo gozaimaz
Kannada Shubhodaya
Kapampangan Mayap a abak
Kazakh Kairly Tan
Khmer Arrun Suo Sdey
Kimeru Muga rukiiri
Kinyarwanda Muraho
Konkani Dev Tuka Boro Dis Divum
Korean Annyunghaseyo
Kurdish Badini Spede bash
Kurdish Sorani Beyani bash
Laotian Sabaidee
Latvian Labrit
Lithuanian Labas reytas
Lozi U zuhile
Luganda Wasuze otyano
Luo Oyawore
Luxembourg Gudde moien
Macedonian Dobro utro
Malayalam Suprabhatham
Malaysian Selamat pagi
Maltese Għodwa it-tajba
Manx Moghrey mie
Maori Ata marie
Mapudungún Marí-marí
Marathi Suprabhat
Mongolian Öglouny mend
Navajo Yá'át'ééh abíní
Ndebele Livukenjani
Nepali Subha prabhat
Northern Sotho Thobela
Norwegian God morgen
Owambo Wa lalapo
Pashto Sahar de pa Khair
Persian Sob bekhair
Polish Dzien dobry
Polynesian Ia ora na
Portuguese Bom dia
Punjabi Sat Shri Akal
Rapa Nui Iorana
Romanian Buna dimineata
Russian Dobraye ootra
Samoan Talofa lava
Sanskrit Suprabhataha
Sardinian Bona dia
Serbian Dobro jutro
Shona Mangwanani
Sinhalese Suba Udesanak Wewa
Slovak Dobré ráno
Slovenian Dobro jutro
Somalian Subax wanaagsan
Southern Sotho Dumela
Spanish Buenos dias
Swahili Habari za asubuhi
Swazi Sawubona
Swedish God morgon
Tagalog Magandang umaga
Taiwanese Gau cha
Tamil Kaalai Vannakkam
Telugu Subhodayamu
Thai Aroon-Sawass
Tibetan Nyado delek
Tonga Mwabuka buti
Tswana Dumela
Turkish Günaydin
Turkmen Ertiringiz haiyirli bolsun
Ukrainian Dobri ranok
Urdu Subha Ba-khair
Uzbek Khairli kun
Vietnamese Xin chao
Welsh Bore da
Xhosa Bhota
Yoruba E karo
Zulu Sawubona
!Kung san Tuwa
De Manuel Ferrador a 28 de Julho de 2011 às 21:56
Caros Amigos e Amigas
Com que então mais uma história dos amigos Vasco e Nuno Santos. Tomem nota que a mesma é como que um retrato fiel da vida comunitária dessa época. Ressalta desde logo o sentido de partilha e entreajuda que existia nos trabalhos do campo. O campo como meio importante de subsistência. Os termos usados em relação às propriedades e aos intervenientes no citado acto de surripiar as cerejas ao vizinho. A referência à taberna, locais de encontro, que hoje não existem e são apenas uma recordação. Aos usos e costumes, com referência ao "pipo do vinho", qual objecto sagrado que todos beijavam para matar a sede ou saborear o precioso liquido. Claro fica que no envolvimento estava preservada muita higiene, como forma de combate às contaminações. Por fim a referência à Sra. Laura (que Deus tenha) com o descarregar da sua fúria a outros galopins de quem desconfiava. O povo tem sempre razão nos seus provérbios cheios de sabedoria: "Guardado estava o bocado para quem o havia de comer". Na verdade um verdadeiro painel de obras, actos e sentimentos, que nos fazem sentir já velhos. Parabéns aos relatores.
De J.A.S FCP Nrº 102214 a 28 de Julho de 2011 às 21:30
QUE SORTE TIVERAM ESTES GANDULOS...
IMAGINO O QUE TERIA SIDO SE TIVESSEM SIDO RECONHECIDOS...
ENTÃO ISSO FAZ-SE?
IR ROUBAR CEREJAS E NEM UMA DEIXAR PARA AMOSTRA...
PARA A PROXIMA DEIXEM PELO MENOS UM RAMINHO DELAS...
PARABÉNS NUNO POR MAIS ESTA HISTÓRIA!
De leonor.moreira a 28 de Julho de 2011 às 20:21
Olha esta! E pensava eu que o amigo Vasco seria um santinho... bonito serviço, o destes "lapantins" (palavra mto usada pelo Sr Zé do Forno)!
A História está bem recontada, mais uma não é Nuno?
Parabéns!
cmps
leonor moreira
De Lurdes a 28 de Julho de 2011 às 13:29
Bonjour my friends !!! Vendo essa cerejeira tão carregadinha até da vontade de assalta-la.. xiu eu sei que esta é só pra embelezar o nosso cantinho e claro não esquecendo a historia desses malandrecos

Bom dia pra todos des amis..o meu frances é muito fracote nem sei se esta bem escrito pronto quis dizer amigos!

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