Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

Quando o Comboio saiu, sem sinal de partida

O velho Texas, nome pelo qual era conhecido o comboio da linha do Corgo, fazendo o percurso de Chaves à Régua, e vice-versa, tinha para toda esta região, um valor inestimável. Além do seu valor económico, transportando pessoas e bens, tinha também um inestimável valor social, para as populações do vale, nomeadamente para as de Outeiro Seco.

Nesse tempo havia poucos relógios, e o da torre da igreja, agora lamentavelmente contestado por uma minoria, ainda não passava de uma quimera, de modo que, muitas famílias levantavam-se e deitavam-se, quando ouviam o silvo do comboio. Este saía de Chaves às sete horas da manhã, e o último que chegava a Chaves, fazia-o por volta das dez da noite.

Mas para que o comboio pudesse partir todos os dias às sete da manhã, havia toda uma série de tarefas e procedimentos, que os funcionários, designados por ferroviários, faziam antes.

Logo que chegava o último comboio da noite, o agulheiro encarregava-se de mudar a agulha, definindo o alinhamento dos carris para o dia seguinte. Como o comboio era movido através de uma máquina a vapor, provocado pela combustão do carvão, o fogueiro, levantava-se todos os dias às duas da manhã, para carregar e acender a fornalha, voltando a deitar-se.

Bem antes das sete da manhã, levantava-se o maquinista, para verificar a pressão e com a ajuda de outros funcionários, atrelarem a máquina aos vagões e carruagens, prontos do dia anterior.

Tudo tinha de estar em conformidade, para às sete horas em ponto, depois do chefe Cepeda baixar a bandeira verde, e dar uma valente apitadela no seu apito, o maquinista accionar a alavanca, e o comboio arrancar na sua marcha lenta de, pouca terra pouca terra, pouca terra, parando em todas as estações e apeadeiros, até à Régua.

De Chaves, levava sobretudo produtos agrícolas, como as batatas e os cereais, mas também pessoas, algumas das quais em definitivo, iam para o Porto ou Lisboa, onde apanhavam o vapor para o Brasil, e para outras paragens longínquas, de onde uma boa parte deles, nunca mais regressou.

A partir da década de sessenta, os passageiros do velho Texas passaram a ser outros, e estes nem pagavam o título de transporte. Eram os soldados do BC 10, que tinham uma guia de marcha, e os levava para a guerra nas ex-colónias, donde alguns, também nunca mais regressaram. 

Mas esta história teve um final diferente. Um dia vá lá saber-se porquê, depois do fogueiro ter acendido a fornalha da máquina, a alavanca que o maquinista accionava para por o comboio em marcha, tinha ficado em baixo. Quando a máquina ficou com combustão suficiente, esta começou a andar sozinha, e como a linha ficara preparada de véspera, lá vai ela no seu rumo certo.

 À hora habitual quando o maquinista se dirigiu à locomotiva para ultimar os últimos preparativos, nem queria acreditar no que via, ou antes, no que não via, porque a máquina tinha desaparecido. Correu à casa do chefe Cepeda, que era na estação, informando-o do sucedido. Este acabado de levantar, confrontado com a insólita situação, só teve tempo para enfiar a farda, apertando os botões enquanto caminhava.

De princípio ficaram sem saber o que fazer, pois não sabiam o que tinha acontecido, se a máquina partira sozinha, se algum aventureiro fugira com ela. Por fim, decidem chamar um táxi, e seguem pela estrada de Braga até Curalha, onde a locomotiva teria de passar.

Com efeito, foi já bem perto de Curalha que, avistaram a locomotiva, em marcha muito lenta, porque desgovernada, faltava-lhe a pressão dada pelo motorista, para acelerar a marcha.

O motorista subiu então para a locomotiva, e inverteu-lhe a marcha, trazendo-a de volta a Chaves, onde foi depois atrelada aos restantes vagões e carruagens, saiu com um atraso considerável.

Nesse dia em Outeiro Seco, houve quem se levantasse mais tarde, sem saber o que se passara na estação de Chaves.

Nuno Santos

      

sinto-me:
publicado por outeiroseco às 09:31
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1 comentário:
De Manuel Ferrador a 7 de Agosto de 2012 às 17:01
Caros Amigos
A história do "Texas" vulgo comboio de Chaves, é rica em episódios pitorescos, mas confesso que não conhecia o que o amigo Nuno nos deixa neste Blog. Isto do pesado monstro arrancar sózinho e chegar quase a Curalha sem intervenção humana, é obra de se lhe tirar o chapéu. Coisas de outros tempos, que apesar de difíceis, nos fazem bem relembrar. O comboio constituía um benefício muito grande para a nossa região. Foi pena ter acabado, mas nada é imutável, e chegou a sua vez. Não se tratou só da conjuntura económica - como dirão os versados na matéria- mas também de certos interesses particulares. Foi mais um caso com outras histórias pouco transparentes.
Também utilizei o Texas no dia 24 de Janeiro de 1964, numa viagem que me levou até Tavira, e para o cumprimento de um dever patriótico (bem contra a minha vontade). Voltei a utilizá-lo a 8 de Maio de 1965, quando, mais uma vez forçado, tive como destino a Guiné-Bissau. Outros tempos e alguns factos da minha vida a que ele ficou ligado e dos quais não guardo quase nada de bom no meu coração. Mas lá que o Texas fazia falta, ninguém de boa fé o pode duvidar.

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