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Outeiro Seco, Tradição e Modernidade

Aldeia transmontana

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O Iscas

outeiroseco, 11.07.12
 

O Iscas era um carregador de sacos de adubo, no armazém do Américo Teixeira, no tempo em que não havia ainda tapetes rolantes. O transporte dos sacos fazia-se dos vagões da CP para o armazém, e deste para as viaturas dos clientes por homens, carregando-os às costas.

O seu nome de batismo era António Monteiro, natural de Sapiãos, e chegou a ter mais três irmãos como colegas neste duro ofício. Duro só para alguns porque o Iscas fazia isso, como quem bebe um copo de água. Aliás, custava-lhe mais beber um copo da água, por isso ele e os companheiros, faziam durante o dia várias visitas à taberna do Ruço, ou do Farragacho, como que para meter combustível. Na década de sessenta, com a mudança do campo da feira do Tabolado, para a proximidade dos Fortes, as tabernas tinham-se também instalado nestas redondezas. 

Tal era a sua valentia que, um dia, apostou em como carregava de uma só vez, seis sacos de Nitrolusal, totalizando trezentos quilos, do vagão do comboio à pilha do armazém. Conta quem assistiu que, só lhe tremeram as pernas, quando teve de subir a tábua para os despejar na rima.

O Iscas era umas pintas, tinha vindo da tropa havia pouco tempo, e estava em idade de casar, armando-se em engatatão perante os colegas. Foi por isso o António Marrão chefe do armazém, em conluio com o Aurélio Dias funcionário do escritório, combinam pregar-lhe uma partida.

O Marrão foi à taberna do Ruço que já tinha telefone, e pede à telefonista para ligar ao 339, o número do armazém do Américo Teixeira. Na época os telefones não eram directos, e tinham de passar pelo PBX da central dos CTT.

O Aurélio atende o telefone, e avisa o Iscas de que tinha uma chamada para ele. Este muito admirado pelo inusitado da situação, pergunta ao Aurélio quem era, dizendo-lhe apenas que era uma senhora.

De peito feito o Iscas pega no telefone e pergunta quem era. Do outro lado o Marrão, imitando uma voz feminina inventa um diálogo, que do lado de cá só ouvem o Iscas dizer.

- Evidentemente, na certeza porém, na razão de quê!

O Marrão com a sua voz maviosa, convenceu o Iscas a marcar um encontro junto ao Monumento, dizendo-lhe que levava uma rosa ao peito, para melhor a identificar.

Os colegas questionam o Iscas sobre o telefonema, mas este só lhes diz que era uma mulher que andava caidinha por ele, e marcara um encontro para o fim de semana seguinte. No dia anterior os colegas diziam para o Iscas.

- Eh pá tu vê lá! Amanhã tens que te aperaltar.

- Não há problemas, esta já está no papo- dizia o Iscas.

No fim de semana à hora marcada, de barba bem feita e bem penteado, lá estava o Iscas junto ao monumento, só que da mulher com a rosa ao peito nem sinais.

Quando na manhã seguinte os autores da patranha lhe perguntam.

- Então Iscas! Identificaste a mulher?

- Claro! Nem precisei da rosa para nada, quando a vi ao longe soube logo quem era.

E por mais que Marrão dissesse que era um grande mentiroso, porque fora ele quem fizera o telefonema. O Iscas nunca se desmanchou, afirmando que o encontro se realizara, e que a mulher era uma das suas conquistas.    

 Nuno Santos

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