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Outeiro Seco, Tradição e Modernidade

Aldeia transmontana

Outeiro Seco, Tradição e Modernidade

Aldeia transmontana

A Maria Ilhoca

outeiroseco, 02.08.12

Desde que há registos, através dos censos, Outeiro Seco foi sempre uma terra de acolhimento. Aqui sempre morou, gente nascida noutros lugares.

No início do século, morou na casa térrea que ainda existe, logo no início na rua do Penedo, uma senhora chamada Maria, mais conhecida por Maria Ilhoca, talvez porque a sua origem, fosse das ilhas dos Açores ou da Madeira.

Na casa do lado morava uma outra imigrada de nome Maria Pita, natural da Pastoria, e já aqui citada neste blog, por ser a mãe do Pita, um nome proscrito no início do século XX, em toda esta região.

O mais provável é que a Maria Ilhoca, fosse natural da ilha da Madeira, por causa da actividade que desenvolvia, os bordados. Era uma excelente bordadeira, e vivia exclusivamente dos bordados que vendia na aldeia e na cidade.

São desconhecidas as razões porque viera para o continente, e para Outeiro Seco, mas talvez fosse trazida pela paixão por algum embarcadiço que, por lá passara. Nessa altura as condições de vida nas ilhas, tanto nos Açores como a Madeira, eram muito depauperáveis. As suas populações saíam logo que se vislumbrasse uma qualquer oportunidade. Os açorianos faziam-no sobretudo para os Estados Unidos e Canadá, os madeirenses mais para a África do Sul e Venezuela.

Curiosamente tinham conceitos de vida bem diferentes. Os madeirenses emigravam, mas sempre com a ideia do regresso à terra, e há disso bastos exemplos, de casas construídas pelos emigrantes, algumas estão fechadas durante o ano, sendo ocupadas apenas na altura das suas férias.

 Há inclusive, grupos económicos de referência nacional, criados por madeirenses que regressaram a Portugal ricos, como: Grupo Pestana, Joe Berrado, Horácio Roque (Banif) Jardim Gonçalves (BCP) e outros.

Por sua vez os açorianos, montam estacas na terra de acolhimento, e raros são aqueles que regressam à terra de origem, a não ser de passagem e para assistirem às festividades do Senhor Santo Cristo, em agradecimento pela nova vida conquistada.

O regresso à ilha, não era o sonho da nossa Maria Ilhoca, e como não tinha família e com o receio que não tivesse um funeral a preceito, com a sua idealização, ainda bem viva, foi à cidade e comprou o caixão, onde haveria de morar eternamente, guardando-o religiosamente em casa.

O facto algo bizarro deu que falar na aldeia, mas habituaram-se a ele, e quando lhe chegou a hora, o trabalho estava feito. Não foi preciso recorrer aos serviços da agência funerária, nem fazer qualquer coleta pelo povo, porque a Maria Ilhoca deixara tudo preparado. 

Nuno Santos